Alemanha declara Guerra a Portugal

O primeiro passo para o envolvimento oficial de Portugal na I Guerra Mundial, contra as forças alemãs e do Império Austro-Húngaro, tinha sido dado no início de Fevereiro de 1916. No dia sete desse mês, o Governo republicano publicou uma lei onde, entre outros aspectos, ficava estabelecido que poderia requisitar, “em qualquer ocasião”, as “matérias-primas e os meios de transporte que forem indispensáveis à defesa ou economia nacional, que se encontrem nos domínios da República”.

No dia 23 foi dado o segundo passo, com a entrada a bordo nos navios alemães ancorados em Lisboa. Na mão, os emissários portugueses levavam uma carta pró-forma de notificação da requisição dos navios, com base numa lei publicada nesse mesmo dia. Esta alegava que a requisição se tornara necessária devido à falta de navios para transporte marítimo, o que dificultava o acesso do país a muitos produtos indispensáveis para a subsistência da população (facto que já dera origem a vários distúrbios em diversas localidades). De acordo com nova lei, que conta com a assinatura de Bernardino Machado (presidente) e Afonso Costa (chefe do Governo), caberia ao Ministério da Marinha avaliar os navios e todos os seus pertences.

O vapor “Cisne”, junto de um vapor alemão, conduzindo as forças da marinha que tomaram posse dos navios alemães, Março de 1916

Ao todo, foram apreendidos 72 navios e respectivas cargas, espalhados por todos os territórios portugueses, como Angola e Moçambique , mas com destaque para Lisboa (onde estavam mais de metade). No Porto, por exemplo, estava apenas uma embarcação, o Vesta. Diversos vapores precisaram de reparações, já que, embora sem incidentes, o processo de requisição confrontou-se com peças escondidas ou danificadas pelas tripulações alemãs.

Portugal lidera na produção de conservas

Portugal era, nas vésperas da guerra, o primeiro produtor mundial de conservas, e 55% do total da produção nacional de conservas de sardinha, em 1915, seria provavelmente proveniente do Algarve. A Guerra impôs novas necessidades de mercado, favorecendo o desenvolvimento da indústria conserveira, que passou a ocupar o segundo lugar nas exportações nacionais.

A Guerra e a Indústria Conserveira

 Ana Prata, As Guerras Mundiais e o Sector Conserveiro portimonense, adaptado. 

Futebol “ajuda” na Guerra

Tendo já um papel importante na sociedade inglesa desde finais do século XIX, o futebol revelou-se um excelente treino de preparação para a Guerra: treino físico, espírito de equipa, disciplina, moral.

Não é por acaso que as metáforas de guerra são utilizadas na gíria futebolística. Em termos estratégicos joga-se “à defesa” ou “ao ataque” contra o adversário que é o “inimigo” e disputa-se a vitória ou derrota no “campo de batalha”. Marcar golos é ter “boa pontaria”, mandar um “tiro certeiro” ou “fuzilar” as redes do adversário.

Esta ligação entre futebol e guerra vai além da semântica. Na verdade, o futebol teve também muita importância em termos militares no decurso da I Guerra Mundial.

Futebol feminino na Guerra

A I Guerra Mundial foi a chave para o crescimento do futebol feminino em Inglaterra. Como muitos homens foram para o campo de batalha, a mulher entrou no mercado de trabalho e eram muitas fábricas que tinham as suas próprias equipas de futebol, algo que até então era privilégio dos homens.

O futebol serviu, assim, para quebrar barreiras sociais e se as mulheres passavam a ocupar cada vez mais os lugares dos homens nas indústrias. A produção de itens bélicos essenciais intensificou-se a partir de 1914, graças à força das mulheres que participavam na produção de munições, equipamentos de guerra, navios, roupas especiais e mantimentos. Da mesma forma como foram absorvidas por trabalhos praticamente exclusivos aos homens, também puderam experimentar um desporto até então masculino.

O grande salto do futebol feminino aconteceu em 1917. Naquele ano, nasceu a Challenge Cup, conhecida também como Munitionettes’ Cup, por envolver as trabalhadoras da indústria de munições. Nete jogo, 22 mil pessoas assistiram à vitória do Blyth Spartans sobre o Teeside por 5 a 0, um jogo realizado no Ayresome Park, o estádio do Middlesbrough. Entre as estrelas da equipa estavam Bella Reay, marcadora de mais de 130 golos naquela campanha, e Jennie Morgan, que foi diretamente do seu casamento para um jogo onde marcou dois golos.

Jogos Olímpicos de 1916 cancelados

A organização dos VI Jogos Olímpicos, em 1916, foi atribuída à cidade alemã de Berlim para demonstrar o poderio do império alemão liderado pelo Kaiser Guilherme II. Todavia, o quadriénio olímpico não pôde ser respeitado devido ao eclodir da Primeira Guerra Mundial, que envolveu 28 países, obrigando à anulação dos Jogos marcados para Berlim.

Apesar disso, foi possível reunir na Sorbonne, em Paris, os representantes dos países beligerantes e celebrar, olimpicamente, o vigésimo aniversário do Comité Olímpico Internacional, até porque se antevia uma guerra de curta duração. O prolongar do conflito obrigou ao cancelamento dos Jogos, apesar de Guilherme II ter tentado, em vão, uma trégua olímpica que permitisse a realização do evento em duas semanas.

E assim, o então recentemente inaugurado estádio de Berlim deu lugar às trincheiras da guerra. Mesmo sem se terem concretizado, as Olimpíadas de 1916 fazem parte da listagem oficial dos Jogos Olímpicos, que continuam a ser regulados por um ciclo de quatro anos entre cada edição. Dois anos depois do fim da Primeira Grande Guerra, o ciclo olímpico foi retomado com a organização dos VII Jogos Olímpicos da Era Moderna na cidade belga de Antuérpia e para os quais não foram convidadas a Alemanha e a Áustria, nações derrotadas pelos Aliados.

Jogos Inter-Aliados celebram o fim da guerra

Os Jogos Inter-aliados, também chamados de ‘Olimpíadas Pershing’, foram realizados em 1919, em Joinville, nos subúrbios de Paris, entre 22 de junho e 6 de julho.

Este evento desportivo foi organizado sob o comando do General John J. Pershing, comandante das forças norte-americanas na Europa, após dois meses do final da I Guerra Mundial. Dirigido aos militares que tinham participado na Guerra ou que tinham servido as forças militares dos países aliados, foram dezoito as nações que aceitaram participar. Oriundos dos cinco continentes estiveram em prova cerca de 1500 atletas que competiram em 24 modalidades, durante 15 dias. De acordo com relatório oficial do comité organizador dos jogos, Portugal participou com 51 atletas nas modalidades de esgrima, natação, pólo-aquático, remo e tiro.

Entrega de medalhas aos soldados participantes

Na Cerimónia de Abertura, realizada no Estadio Pershing, onde mais de vinte mil espectadores estiveram presentes, as delegações desfilaram frente à tribuna onde os presidentes Woodrow Wilson, dos Estados Unidos da América e Raymond Poincaré, de França, se encontravam. A imprensa da época destacou as ausências da delegação portuguesa e da bandeira nacional. Os resultados alcançados na modalidade de esgrima foram os que mais se destacaram: 2º lugar, medalhas de prata nas competições por equipas, em Espada e em Sabre e na vertente individual, em Espada, conquistada pelo Tenente Jorge Paiva.

No final dos Jogos Inter-Aliados de 1919, o Estádio Pershing foi oferecido ao povo francês pelos Estados Unidos da América sendo ainda hoje utilizado como uma área de recreação ao ar livre.

Futebol em missão de Guerra

[Futebol em missão de guerra]: [a demanda da vitória], Lisboa, [1916], Biblioteca Nacional Digital

Possivelmente este cartaz foi feito no contexto da entrada de Portugal na I Guerra Mundial, sendo muito provável que tenha sido produzido para assinalar o acolhimento da Missão naval inglesa que veio a Portugal em Maio de 1916 para tratar dos moldes da participação do Corpo Expedicionário Português no teatro de guerra.

Em grande plano, sobre círculo limitando relvado onde correm dois jogadores sob céu vermelho (sanguíneo) com nuvens ao fundo, jogador de futebol, equipado com camisola branca listada de verde, apresentando ligadura num joelho e luva correctora numa mão, prepara-se para chutar a bola; em 2º plano, soldados e marinheiros, em formatura frente a frente, junto à costa onde se avista um navio de guerra e balsas de desembarque carregadas de passageiros.

Jogadores de futebol também foram à Guerra

Durante a I Guerra Mundial, o exército britânico criou batalhões compostos por futebolistas profissionais. Os desportistas seriam os homens fisicamente mais aptos da nação e teriam obrigatoriamente de se juntar ao esforço de guerra.

Muitos futebolistas trocaram o campo de futebol pelo campo de batalha e integraram os chamados Batalhões de Futebol do exército britânico. Além de fisicamente melhor preparados e, por isso, mais aptos para o confronto, a incorporação de jogadores de futebol servia também de ferramenta de propaganda e recrutamento, uma vez que seriam seguidos como um exemplo e arrastariam os adeptos dos clubes onde jogavam para o campo de batalha. “Venham ao jogo mais importante, juntem-se ao Batalhão do Futebol”, exortava um cartaz de recrutamento.

Terão morrido 213 futebolistas profissionais ingleses durante o conflito.

Tropas inimigas disputam jogo de futebol em período de tréguas

De acordo com o New York Times de 31 de dezembro de 1914, o primeiro Natal após início da Primeira Grande Guerra ficou marcado por um acontecimento no mínimo insólito. Em “No Man’s Lands” ou “Terras de Ninguém”, (denominação dada à região de Ypres, Bélgica) tropas inimigas conviveram amigavelmente,  na véspera de Natal de 1914.

O convívio foi para além de algumas inesperadas partidas de futebol, uma vez que para além disso se trocaram alimentos, presentes e se entoaram cânticos de natal. Um momento simbólico que refletiu paz e humanidade no meio de um dos acontecimentos mais mortíferos de sempre.

Os acontecimentos da trégua só agora podem ser relatados devido à censura de imprensa que está em vigor em alguns dos países em guerra. O silêncio foi então quebrado pelo New York Times a 31 de dezembro, seguido pelos jornais britânicos. A 8 de janeiro, foram publicados os primeiros registos fotográficos do episódio pelo jornal The Daily Mirror que divulgou na primeira página fotos de soldados britânicos e alemães a confraternizar numa partida de futebol.