Cristiano Cruz: a tragédia e a angústia na pintura

Cristiano Cruz foi um reconhecido humorista português que em 1917 partiu para França incorporado no Corpo Expedicionário Português. No cenário de guerra realizou um conjunto de obras temáticas relacionadas com a guerra, regra geral em pequena escala.

Este guache terá sido executado em França durante a guerra para onde o artista havia sido mobilizado. O traço negro, a forma quebrada e angulosa dão uma ideia de intensidade e agressividade. À direita, uma explosão. A reacção: um soldado de braços abertos é atirado para o chão.

Limitando-se sempre aos formatos reduzidos, estes trabalhos são a sua contribuição mais importante para uma via expressionista.

Ballets Russos em Portugal

Quando os Ballets russos chegaram a Lisboa, no início de Dezembro de 1917, havia um ano que Portugal era um dos países envolvidos no primeiro conflito armado à escala mundial, iniciado em 1914. Um pouco por toda a Europa, a fome, as greves, os motins de rua e as insurreições militares faziam parte do quotidiano das populações.

Programa especial extraordinário: argumentos, distribuição de personagens, ilustração de Jorge Barradas, Biblioteca de Arte Calouste Gulbenkian

Em 1917, as primeiras páginas dos jornais da capital dividiam-se entre as notícias sobre a frente de batalha, a revolução dos sovietes e a agitada situação interna, com especial destaque, em Dezembro, para o golpe que colocou Sidónio Pais no poder.

Dos espectáculos no Coliseu – os Ballets Russos estiveram em Lisboa até final de Março de 1918 e apresentaram-se depois no Teatro S. Carlos – guarda-se no acervo documental da Biblioteca de Arte um exemplar do Programa especial extraordinário. Por entre anúncios variados, publicam-se os resumos das peças, como “O Espectro da rosa” e “Thamar”, que se apresentaram na sala da Rua das Portas de S. Antão e um pequeno texto de elogio aos bailarinos.

Mas o que o torna verdadeiramente “especial” são as ilustrações e a composição gráfica da capa e da contracapa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). Mas o que o torna verdadeiramente “especial” é a ilustração e a composição gráfica da contracapa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). Barradas, um dos modernistas “da primeira geração”, foi um dos principais ilustradores destes anos, contribuindo para a renovação do desenho e do grafismo com as ilustrações que realizou para várias publicações, destacando-se as capas da revista ABC. Para ilustrar este “programa especial”, inspirado certamente pelos sumptuosos e coloridos cenários e figurinos criados por Léon Bakst para os bailados “orientais”, Barradas desenhou na contracapa uma figura masculina, de vestes amplas e de cores fortes, turbante e grande sabre e onde, curiosamente, se publicita de forma graficamente criativa e original não os Ballets russos, mas bolachas da fábrica “Nacional”.

Fotografias em autocromo vêem a luz do dia

“Autocromo” foi uma tecnologia francesa que permitiu registar a Primeira Guerra Mundial através de fotografias a cores. Contudo, esta técnica não era muito comum e, por isso, foi pouco utilizada.

©Mark Jacobs Archive

A técnica foi patenteada em 1903 pelos irmãos Lumière e comercializada em 1907 pela primeira vez. Dado que a técnica surgiu em França, o exército francês é quem dispõe de mais fotografias a cores, no que diz respeito a este conflito.

Arnaldo Garcez fotografa Guerra

Na I Guerra Mundial, Arnaldo Garcez integra as tropas portuguesas, tornando-se assim num dos primeiros fotógrafos a ser repórter de guerra. As suas imagens resumem-se a aspectos do quotidiano, nunca mostrando imagens de sofrimento do mesmo, naturalmente impedido pelos objectivos do seu trabalho e pela necessidade de não desmoralizar as populações que no país nada sabiam sobre o sofrimento dos seus parentes.

Carreira de tiro – Arquivo Histórico Militar

Militares nas trincheiras – Arquivo Histórico Militar

Treino com máscaras de gás – Arquivo Histórico Militar

Fado “O Soldado na Trincheira” de Fernando Farinha

O soldado na trincheira, não passa duma toupeira
Vive debaixo do chão.
Só pode ter a alegria de espreitar a luz do dia
Pela boca de um canhão.
Mas quando chegar a hora dele arrancar por aí fora
Ao som da marcha de guerra,
Seus olhos são duas brasas e as toupeiras ganham asas
Como as águias lá da serra.

Refrão :
Rastejando como sapos, com as fardas em farrapos
Pela terra de ninguém
Mas cá dentro o pensamento, corre mais alto que o vento
Quando pela nossa mãe.
E se eu morrer na batalha, só quero ter por mortalha
A bandeira nacional.
E na campa de soldado, só quero um nome gravado
O nome de Portugal.

Soldados da nossa terra, são voluntário da guerra
Que vêm bater-se por brio.
Raça de povo e de glória, que escreveu a nossa história
Nos mundos que descobriu.
Por isso a Pátria distante, brilha em nós a cada instante
Como a luz de uma candeia,
Que arde de noite e de dia no altar da Virgem Maria
Na igreja da nossa aldeia.

Joshua Benoliel: o fotógrafo da Guerra

Filho de pais britânicos, mas a residir em Portugal, Joshua Benoliel é já considerado o criador da reportagem fotográfica em Portugal. Fez registos dos reis D. Carlos ou D. Manuel II e das revoltas da I República e agora encontra-se na Flandres. Tem enviado fotografias para os jornais como O Século, Ilustração Portugueza ou Atlântida.

O intimismo e humanismo das suas fotografias em cenários de tensão ou sofrimento são um dos mais bem conseguidos reportórios fotográficos ilustrativos da I Grande Guerra. Os momentos de despedida dos militares portugueses das suas famílias são de grande emoção.

Adriano Sousa Lopes: Um pintor nas trincheiras

Nascido em Vidigal, no concelho de Leiria, o pintor vivia em Paris desde 1903, para onde fora estudar como pensionista do Estado no estrangeiro, e, desde Agosto de 1914, assiste à mobilização geral que a guerra provoca na sociedade francesa. Chega a voluntariar-se como enfermeiro nos hospitais militares da cidade, onde realiza apontamentos que grava a água-forte.

Mas o ano de 1917 é um momento-chave na carreira: a sua primeira exposição individual é um sucesso de crítica e de público, patente desde Janeiro na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. O Presidente da República Bernardino Machado visita a exposição e adquire vários trabalhos. O jornal O Século chega a noticiar o roubo de um quadro durante a exposição, uma das inúmeras vistas pintadas em Veneza.