Quando os Ballets russos chegaram a Lisboa, no início de Dezembro de 1917, havia um ano que Portugal era um dos países envolvidos no primeiro conflito armado à escala mundial, iniciado em 1914. Um pouco por toda a Europa, a fome, as greves, os motins de rua e as insurreições militares faziam parte do quotidiano das populações.

Programa especial extraordinário: argumentos, distribuição de personagens, ilustração de Jorge Barradas, Biblioteca de Arte Calouste Gulbenkian
Em 1917, as primeiras páginas dos jornais da capital dividiam-se entre as notícias sobre a frente de batalha, a revolução dos sovietes e a agitada situação interna, com especial destaque, em Dezembro, para o golpe que colocou Sidónio Pais no poder.
Dos espectáculos no Coliseu – os Ballets Russos estiveram em Lisboa até final de Março de 1918 e apresentaram-se depois no Teatro S. Carlos – guarda-se no acervo documental da Biblioteca de Arte um exemplar do Programa especial extraordinário. Por entre anúncios variados, publicam-se os resumos das peças, como “O Espectro da rosa” e “Thamar”, que se apresentaram na sala da Rua das Portas de S. Antão e um pequeno texto de elogio aos bailarinos.
Mas o que o torna verdadeiramente “especial” são as ilustrações e a composição gráfica da capa e da contracapa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). Mas o que o torna verdadeiramente “especial” é a ilustração e a composição gráfica da contracapa, da autoria de Jorge Barradas (1894-1971). Barradas, um dos modernistas “da primeira geração”, foi um dos principais ilustradores destes anos, contribuindo para a renovação do desenho e do grafismo com as ilustrações que realizou para várias publicações, destacando-se as capas da revista ABC. Para ilustrar este “programa especial”, inspirado certamente pelos sumptuosos e coloridos cenários e figurinos criados por Léon Bakst para os bailados “orientais”, Barradas desenhou na contracapa uma figura masculina, de vestes amplas e de cores fortes, turbante e grande sabre e onde, curiosamente, se publicita de forma graficamente criativa e original não os Ballets russos, mas bolachas da fábrica “Nacional”.