Em 1914 Portugal vivia um cenário de miséria social em tudo semelhante ao experimentado antes do conflito, agravado, é certo, pelas dificuldades de abastecimento de alguns produtos base da alimentação das classes mais pobres, como os cereais e o bacalhau, mas no essencial, a maioria da população continuava a retirar o seu sustento da terra, sem depender da importação, o que acabaria por impedir, numa primeira fase, que a economia interna fosse tão afectada pela conjuntura internacional como o seria a posição financeira do País.
A conjuntura de Guerra não permitiu à agricultura inverter a queda de grande parte das suas produções, acentuando uma tendência que há muito se vinha verificando. O sector foi globalmente afectado não só pelas dificuldades de acesso a determinados factores de produção (sementes, adubos), mas também pelo retraimento da exportação de alguns produtos base da economia agrícola, nomeadamente o vinho do Porto, e por uma conjuntura climatérica pouco favorável. Por outro lado, algumas medidas adoptadas, nomeadamente o tabelamento de preços e a obrigatoriedade do manifesto das produções, acabaram por ter também reflexos negativos, gerando o descontentamento nos meios agrários. Na verdade, seria a indústria portuguesa, onde a intervenção do Estado só timidamente se fez sentir, quem acabou por tirar partido da conjuntura.
Ana Paula Pires, A República e a economia de guerra, Lisboa, Caleidoscópio, 2011




